.
.
... na rua Maria erguia seu prato. tinha olhos desdentados e rugas secas das lágrimas que há anos não chovia, nem de tristeza, nem de alegria... ao vê-la, imaginei Maria, mariazinha... a vi brincando menina, correndo sem o peso do amanhã nos seus ombros. dentro, mariazinha se escondia atrás do coração de Maria, rezando para que alguém afastasse as moscas que pousavam no corpo dela. qualquer alguém... ali, Maria nascia e crescia tão rapidamente como lentamente morria... tornou-se uma paisagem naturalmente pintada pelos homens, como a figura de Cristo tatuada ao redor do próprio umbigo... anos mais tarde, Maria ainda sobrevivia por ali, pintando de negro a asa branca, dormindo sobre as flores de Geraldo Vandré e perdendo o trem das onze, com o que lhe sobrava, restava apenas sentar-se no chão para ver a banda passar... tanta miséria agasalhava Maria. tantos nãos a nutria. mesmo assim, quase alcancei mariazinha quando me estendeu sua mão enquanto Maria me agradecia. podres esperanças exalavam de Maria. vida vencida. mas a maioria das pessoas que passavam não sentiam, ou melhor, não queriam. muitos nem viam Maria ali sentada. calada. miudinha. no prato algumas moedas no lugar de comida. não seria eu se não fosse Maria. era Maria. eu sei que era Maria. mas poderia ser meu pai, minha filha. poderia ser você, João, Ana, Cecilia... um ou outro jornalista escrevia sobre quantos quilos da vida daquilo cabiam em um só olhar, já outros, os de gravatas, mediam mesmo a vida de Maria em colherinhas de chá... esta Maria, rainha do quinto naipe do baralho, não era Maria de poesia. era de agonia. não por ser ela tão velha. tão indefesa. sozinha... mas por ser somente Maria.

16 Comments:

  1. A garota do copo d'gua said...
    belo poema, como sempre!
    ;*
    ATUS said...
    e o entender solto pelas entrelinhas! muito bom.

    Agradeço em nome do grupo a força e com o que precisar pode contar com o Grupo ATUS também!
    A união pela arte =)


    abraços

    Ana - ATUS
    Karina Marques said...
    perfeito...
    Palavras de mulher. said...
    ..lindo texto..Maria de tantas outras Marias....
    Roberta Vanessa said...
    Nossa! que lindo texto! este blog já vai pra minha lista de preferidos no meu blog! ehehe
    Fernanda Arantes said...
    "(...)Maria, rainha do quinto naipe do baralho"! Sensivelmente a sagacidade de se compreender, em pureza e sujeira, o que é a alma de uma mulher de identidade enraizada no interior...é sedutoramente bonito.
    Adoro enveredar pelos caminhos reticeres desse espaço...
    Sandrinha said...
    Parabens,parabens,parabens!!!
    ATUS said...
    muito bom!
    Jandir Jr. said...
    "... já outros, os de gravata, mediam mesmo a vida de maria em colherinhas de chá..."

    Essa foi a melhor parte pra mim.
    Abs!
    Anônimo said...
    Pra que serve?
    Eduardo Sabino said...
    Linda prosa poética. Sonoridade e significância à flor da pele.
    Nádia***** said...
    Adorei esse texto, o texto 56!
    Luana Elainy said...
    ''eu sei que era Maria. mas poderia ser meu pai, minha filha. poderia ser você, João, Ana, Cecilia...''

    Nós poderiamos ser Maria. Faço aqui um apelo pra que não esqueçamos que poderiamos ser Maria, e mais, que há a possibilidade de sermos Maria...

    É sempre bom saber que há pessoas com sensibilidade à flor da pele e com olhos bem abertos, pra sentir e enxergar aquilo que não querem que vejamos!
    Clarinha said...
    Amei.
    Muita sensibilidade e verdade...
    Emocionante.
    . said...
    ótimo texto

    (((para dispertar)))

    pensativa>>>

    ;))
    said...
    Lindo!!!!

Post a Comment




Copyright 2007 | Projeto Reticere